NOVA XAVANTINA

Barra do Garças e o Roncador

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Logo a oeste de Caiapônia, assunto da coluna anterior, começa uma enorme formação rochosa, chamada de Roncador. No local do seu início dois rios se encontram – o Garças e o Araguaia – criando um ambiente onde as planícies fluviais alagadas contrastam com as escarpas rochosas em arenito.

Barra do Garças é assim chamada por estar localizada na confluência do Rio Graças com o Araguaia, na exata divisa entre MT e GO. Território de índios xavantes e bororos, a região foi descoberta através da navegação do Araguaia.

Mas a primeira atividade local foi a mineração de ouro e diamante, substituída depois pela agropecuária. A cidade cresceu a partir do programa de colonização do interior de Getúlio Vargas e, depois, da política de desenvolvimento da Amazônia.


Mapa de Barra do Garças, MT
 

Foi de Barra do Garças que partiu em 1925 a expedição de Percy Fawcett, que teria inspirado o personagem de Indiana Jones. Era um inglês aventureiro que esperava descobrir um novo Eldorado, por ele chamado de a cidade perdida de Z. Mas quem se perdeu na selva foi ele, fato cercado desde então por muitas lendas e buscas.

Foi lá também que começou a famosa expedição ao Xingu dos irmãos Villas Boas – eles encontraram junto aos índios Kalapalo o que teriam sido os ossos de Fawcett.

Barra do Garças é hoje um centro regional de pequenas cidades em GO e MT, voltadas para o gado e a soja. Mas é também um dos principais polos de turismo do Araguaia e o local onde surge a Serra do Roncador.

 


Vale dos Sonhos, Serra do Roncador, MT
 

O Roncador é uma gigantesca formação em arenito, que se estende do Brasil Central até as portas da Amazônia. Seu aspecto é irregular, variando de íngremes paredes rochosas a encostas verdejantes e a discretas elevações descontínuas, ao longo de seus 800 km que se arqueiam num sentido de sul para norte.

Em Barra do Garças o Roncador apresenta duas feições diferentes: à volta da cidade ele ocupa inúmeras corcovas florestadas, das quais a mais elevada ocorre na Serra do Taquaral, a 780m.

 


Inscrição Rupestre na Gruta Serra Azul, Serra do Roncador, Vale dos Sonhos, MT
 

Existe antes dela o PE da Serra Azul, que é o nome local do Roncador. O Parque fica a apenas 5 km da cidade, possui mirantes, cavernas e cachoeiras nos seus 11 mil ha – mas encontrava-se fechado quando passei por lá.

A segunda feição ocorre no chamado Vale dos Sonhos, situado 75 km ao norte. Lá a serra apresenta cênicos paredões rochosos num desenho ora linear e ora sinuoso.

Eles se abrem em furnas e atingem no chapadão do seu interior a altitude culminante de 935m. Ele já é aqui chamado de Roncador, nome derivado do barulho do vento ao atravessar suas fendas.

 


Arco de Pedra, Serra do Roncador, Vale dos Sonhos, MT
 

Ao seguir no Vale dos Sonhos na estradinha para o chapadão, você poderá logo no início subir o morro à direita, que dá acesso ao Arco de Pedra, formado por duas lajes rochosas que avançam no espaço para se encontrarem.
 


Portal na Serra do Roncador, Vale dos Sonhos, MT
 

De lá você terá a bela visão do vale a leste, que encontrará lá embaixo a rodovia BR-158 no chamado Bico da Serra. Este é um impressionante penhasco terminado por uma agulha ambiciosamente conhecida como Dedo de Deus.
 


Bico de Pedra e Dedo de Deus, Serra do Roncador, Vale dos Sonhos, MT
 

Existem dois outros percursos nesta região. Pelo alto, você pode continuar subindo o chapadão, para encontrar seus bonitos campos altos ocupados por pastos e florestas.

Por baixo, pode avançar no rumo das furnas ao sul: Mineiro e Água Limpa, onde a serra se divide em gomos. Numa delas, encontrará as Cachoeiras Gêmeas, vertendo da parede da serra.

Você caminhará pouco, pois as distâncias serão principalmente percorridas de carro – algo frustrante, pois haveria boas trilhas de conexão, talvez não desenvolvidas devido ao turismo incipiente. Por outro lado, o contraste entre a planície infinita e a aspereza da serra é impressionante, iluminado por um sol sempre brilhante e abraçado por um céu poderoso – um visual realmente único.

 


Furna da Água Limpa, Vale dos Sonhos, MT
 

A região é recoberta pelo cerrado, com presença tanto de matas galeria como de matas secas e até de veredas de buritis. Apesar da presença de árvores de porte, a natureza é um tanto sofrida, com solos rasos e áridos, muita vegetação arbustiva e mesmo carrascos lenhosos.

O Estado dispõe de nada menos do que 12 parques naturais. Os dois mais antigos, da década de 1980, são os PN do Pantanal Mato-grossense e da Chapada dos Guimarães. Os estaduais são todos recentes, sendo o Serra Azul o mais antigo deles. Só dois dos PE são pequenos, Serra Azul e Gruta da Lagoa Azul; os demais são enormes, com área média de quase 150 mil ha. Predominam naturalmente as reservas amazônicas.

Não será surpresa encontrar inúmeras cachoeiras neste ambiente de muita água. No Vale dos Sonhos, você poderá visitar os 40 m de queda da Cachoeira São Francisco – suba o chapadão a que me referi acima até a Fazenda Paraná, onde começa o reflorestamento. Os muitos poços do Córrego do Ouro ficam na Fazenda Serra Azul, 12 km à esquerda antes do Vale dos Sonhos.

 


Poço Esmeralda, Barra do Garças, MT
 

Mas o chamado Complexo da Bateia é o principal atrativo. Está a cerca de 65 km a oeste da cidade, dos quais o trecho final é bastante precário. Se os 90 m da Cachoeira da Bateia não me impressionaram tanto, os poços à sua volta são magníficos. O rio escavou um pequeno cânion, com a suave queda do Caldeirão da Bruxa, o lindo Lago Esmeralda e inúmeras piscinas rio abaixo.

A região da Bateia é formada pela serra de mesmo nome, que corre num amplo arco a oeste da estradinha de acesso. É um ambiente áspero e pedregoso, com paredes fraturadas cercadas por uma vegetação dura de cerrado arbustivo.

 


Salto Paraguaçu, Baliza, GO
 

A meu ver, o Salto Paraguaçu é o mais impressionante da região, com sua queda de 96 m através do arenito estriado. É um acesso longo, pois está situado em Baliza (GO) a quase 90 km de Barra do Garças.
 


Poços do Rio Paraguaçu, Baliza, GO
 

Ao retornar, visite os poços naturais 10 km antes deste vilarejo: você poderá escolher entre três dezenas de formações, algumas estando dispostas à sombra, outras sendo atravessadas por águas velozes e profundas ou inversamente ocupadas por calmos remansos. Neles você terá sua recompensa dos caminhos rudes e quentes deste sertão.

Alberto Ortenblad

Alberto Ortenblad

Alberto Ortenblad

Nasceu no Rio, vive em São Paulo, mas seu lugar é em Minas. Foi casado algumas vezes e quase nunca ficou solteiro. Os seus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudou engenharia e depois administração, e percebeu que nenhuma delas seria o seu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonou. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrou na natureza a sua vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acha que se transformou naquela figura antiga e genérica do naturalista.

Fonte: Araguaia Noticia

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