NOVA XAVANTINA

Fusca, uma paixão de 4 rodas, que só aumenta com o tempo

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– Ele ofusca a gente. Reclama um dos jovens na mesa da cervejada depois da pelada domingueira num ensolarado domingo no final dos anos 1960.

– Ofusca muito. Concorda outro peladeiro com um copo firme na mão.

Quem ofuscava?

– Claro que era o dono do Volkswagen, aquele carrinho miudinho que dividia a população em dois blocos: quem tinha um e aqueles que sonhavam com o danadinho.

Essa é a versão que ouvi sobre a origem do apelido Fusca, dado ao automóvel mais famoso e amado no mundo, o Volkswagen sedã que a sabedoria popular chama carinhosamente de Fuscão, Fuca, Fuquinha, Fusquinha.

Mas, sobretudo de Fusca, o apelido derivado do poderio do garotão que tinha um, e que ofuscava os demais jovens daquele grupo peladeiro da grande cidade mineira de Governador Valadares, dividida quase ao meio pelas águas vermelhas do rio Doce, aos pés do bico da Ibituruna, onde o trem da Vale apita e por onde o Nordeste descia em paus-de-arara pra tentar a sorte em São Paulo ou no Rio, oxente!

 
Foto: Vargas de Losor

Fusca - garimpo

Fusca – garimpo


Fusca era meio de transporte no ciclo do ouro em Peixoto de Azevedo, no Norte de MT
 

Na Alemanha, onde nasceu, o Fusca é Käfer; na Espanha, Escarabajo; nos Estados Unidos e Inglaterra, Beetle; em Portugal, Carocha.

Essa variação de nomes não nos interessa, pois o que conta é como o chamamos nacionalmente, com uma leve mudança de grafia e pronúncia no Rio Grande do Sul, onde o linguajar gauchesco o batizou por Fuca.

Alemão, coisa nenhuma.

Inventado na Alemanha com seu motor refrigerado a ar, para suportar o calorão do deserto transportando soldados do poderoso exército nazista no Norte de África.

O Fusca nasceu germânico em 15 de agosto de 1940, da prancheta do projetista Ferdinand Porsche, por ordem do ditador nazista Adolf Hitler, que encomendou-lhe um carro para transportar três soldados e uma metralhadora.

Mas, verdadeiramente brasileiro desde 3 de janeiro de 1959, quando, pela primeira vez, saiu da linha de montagem e ofereceu um passeio ao presidente Juscelino Kubitschek, numa versão conversível especialmente criada para aquele evento.

Tão brasileiro que homenageou os seios da diva paraense da voz rouca, sedutora e o sorriso sem igual, com o Fuscão Fafá de Belém.

Tão político que ressuscitou pra agradar o presidente Itamar Franco, o pai do Plano Real, que deu identidade monetária ao país.

Tupiniquim com tanto status que foi o grande prêmio escolhido pelo prefeito paulistano Paulo Maluf, para presentear os craques Canarinhos que faturaram o tricampeonato no México em 1970.

Tão íntimo dos brasileiros que vai (continua indo) além do carro em si: virou filme e músicas; é paixão.

 
Foto: Volkswagen

Fusca - Itamar

Fusca – Itamar


O presidente Itamar Franco ressuscitou o Fusca no Brasil

 

O Fusca foi o grande carro na interiorização mato-grossense nos anos 1970 e na década seguinte, quando rodovia pavimentada era luxo em parte da malha rodoviária federal.

Trabalhou duro na abertura de cidades e no Ciclo do Ouro no Nortão.

Viatura militar e policial, ambulância, veículo oficial e carro preferido pelos colonizadores, o Fusca foi onipresente àquela época. Até meados dos anos 2000 jornais usavam o carrinho para o deslocamento de suas equipes.

Injustas, as forças políticas e econômicas mato-grossenses não o reverenciam nessa terra onde há município chamado Comodoro e vila com nome de Del Rey, em Carlinda.

Miudinho, mas com bom espaço interno: dois lugares na frente e três no banco traseiro, que cá para nós, não era aconselhável aos grandalhões.

O Fusca tem motorização variada: 1000cc, 1200, 1300 (o mais famoso), 1500 e 1600cc.

Seu motor na traseira, protegido pela lataria, é refrigerado a ar. A distribuição é simples. O consumo, baixo.

A velocidade para os mais ousados poderia chegar a 150 km/h em condições excepcionais.

Na poeira. a vedação funcionava bem e dispensava o guarda-pó.

À noite, sem farol de milha ou auxiliar, não é recomendável viajar no Fusca.

Nos atoleiros e areões, valente. Na buraqueira pula, mas os amortecedores respondem bem.

Não é impossível manusear o câmbio de quatro marchas, quando o cabo da embreagem quebra: o carrinho aceita bem passar marcha no tempo. 

Assistência mecânica era a coisa mais fácil possível (hoje, nem tanto pela sofisticação das oficinas).

Todo mecânico conhecia as manhas e os principais defeitos: era um cabo de vela bambo, falta de lixa no platinado, carburador entupido, a bobina desgastada…

Sempre ao lado do motorista e dos passageiros? Não.

 
Foto: Lorival Fernandes/DC

Fusca - Diário

Fusca – Diário


Fusca transportava equipes do Diário de Cuiabá até os anos 1990
 

O Fusca os abandonava quando chovia: seu limpador de pára-brisas estava pra visibilidade tal qual chinês pro samba. Ninguém é perfeito, nem o carrinho.

Por onde se olhasse nas pequenas e grandes cidades o Fusca estava presente.

Nas estradas, então nem se fala.

O vendedor que fazia os pedidos do comércio mato-grossense viajava em Fusca; o médico que chegava à pequena cidade para atendimento, também.

O táxi que nos levava da rodoviária para casa, idem; a Rádio Patrulha da Polícia Militar, que fazia ronda, então nem se discute; o padre que percorria as paróquias carregava orgulhoso a chave do seu; o primeiro beijo de muitas senhoras grisalhas, avós e bisavós foi no banco de um Fusca, o carrinho que entrou na vida de gerações de brasileiros mato-grossenses e dos demais estados.

É justo afirmar que o Fusca deixou suas digitais na interiorização de Mato Grosso, quer dizer: deixou as marcas de seus pneus.

Metido, o Fusca tinha versão emplumada, mas havia também o Pé de Boi, que conseguia a proeza de deixar sem acessórios o carrinho que já não os tinha.

Mato Grosso sempre foi praça boa para venda do Fusca.

Em 1973, o comerciante paulista de origem japonesa Sango Kuramoti instalou em Cuiabá a Concessionária Volkswagen Trescinco, que durante a fabricação do Fusca foi uma das campeãs nacionais de venda do modelo; Sango ganhou fortuna e tornou-se líder empresarial.

Em Rondonópolis, o empresário português Joaquim Alves de Lima montou uma concessionária, que era a segunda no Estado em volume de desova do carrinho.

De 1959 a 1986 o Fusca reinou, mas a Volkswagen o tirou da linha de montagem para fortalecer o mercado do Gol, seu carro popular que brigava no mercado com o Corcel, Chevette e outros menos cotados.

Itamar Franco mexeu com os pauzinhos logo após assumir a Presidência, em 29 de dezembro de 1992, e no ano seguinte o velho e bom Fusca voltou aos braços, digo, às mãos dos motoristas, saindo zerinho da fábrica.

O retorno teve curta duração: em 1996, o carrinho saiu definitivamente da linha de produção.

 
Foto: Diário de Cuiabá

Fusca - Sango

Fusca – Sango


O empresário Sango Kuramoti foi campeão na venda de Fusca, em Mato Grosso
 

MÉXICO – A Volkswagen passou a produzir um suposto Fusca estilizado, em Puebla, no México, e até o exportou para o Brasil, mas sem sucesso – não era a mesma coisa.
Em 3 de janeiro de 2020, a fabricação mexicana também encerrou seu ciclo.

MAGIA – Além do carinho dos brasileiros e de outros povos, a fábrica do Fusca soube promovê-lo bem.

Em 1968, nos Estados Unidos, o diretor cinematográfico Robert Stevenson lançou o filme Herbie: The Love Bug, que foi nacionalizado com uma dose de paixão virando Se meu Fusca falasse.

Depois, o longa ganhou uma série na TV americana.

No Brasil, inspirado na música Fuscão Preto de Atílio Versutti & Mariel, o produtor Jeremias Moreira Filho dirigiu o longa de igual nome, que tinha no elenco ninguém menos do que Xuxa, o símbolo sexual da época.

Fusca é para sempre mesmo fora da linha de montagem e cada vez com menos unidades circulando.

Uma estrada ou uma rua sem Fusca nunca deve ser vista como vazia, mas como caminho que a qualquer momento pode ser percorrido pelo inconfundível barulho de seu motor anunciando que sobre quatro pneus passa o melhor da memória rodoviária brasileira e, claro, mato-grossense.

Fonte: Araguaia Noticia

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